Dizia o Chullage no seu último concerto no Porto que hoje se ouvem beats cada vez mais fortes e mais
espectaculares, o que deixa cada vez menos espaço (em termos de tempo e também em termos de audibilidade) para se ouvir o mc. Acrescentou ele que isto não era inocente: "é porque hoje são cada vez menos os rappers com alguma coisa para dizer". Foi qualquer coisa como isto.
E é um facto.
Lançam-se hoje discos onde os beats são cada vez mais, como se diz na gíria,
xpto. E, pior, na grande maioria dos casos, o
xpto não é bom. É mau, foleiro.
Eu não sou nenhum purista, se for essa a acusação. Longe disso! E tenho raiva a quem é! Para ser franco, nem sei muito o que isso é... Aprecio muitíssimos novos rappers e produtores. Tanto perco a cabeça com uma cena de um Premier ou de um Pete Rock como de um Alchemist, de um Vadim ou de um J-Live. E isto esqueçendo tantos e tantos outros como Madlib, J-Dilla, Tonk, 9th Wonder e por aí fora...
Agora que é indesmentível que o espaço para o mc começa a ficar atrofiado, isso é. Se por culpa dos produtores pelos beats demasiado
cheios que fazem ou dos rappers por terem pouco para dizer (ou se têm, por ser vulgar e liricamente pouco criativo), isso não sei ao certo.
O que eu sei é que o Premier fazia beats largos, abertos, escancarados, para o Guru (no caso dos Gangstarr) ou qualquer um rimar à vontade. O que eu sei é que os A Tribe Called Quest só precisavam de um simples boom-bap funky para fazer autêntica poesia:
The beat is over and so is the night
The sun is risen and the shine is bright
We all say peace and go our separate ways
Youth is fading as we gain our days
Expedition for the song is simp'
The hours creep, excuse me, I mean limp
As we go you hear a gasp of laugh
As we start up our rhythmic path"After Hours", A Tribe Called Quest
Onde anda a poesia no rap?
A poesia, sim. E não meia dúzia de palavras, mormente de
frontin', atabalhoadamente encaixadas nuns desgostosos versos.